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terça-feira, 30 de junho de 2015

Cooking with Love #1

Vou tentar iniciar uma nova rubrica, dedicada aos tachos, aos meus amigos e ao que cozinho para eles.

Cozinhar para mim é um acto de amor, é imbuir aquilo que preparo com amor para aqueles que me são queridos, alquimia do tacho ou kitchen witchery chamem-lhe o que quiserem.

Ontem, depois de um dia merda em que até o meu carro me pregou uma partida, recebi uma amiga minha em casa, precisávamos os dois de falar, de estar no sofá na conversa. Já tinha decidido o que fazer para ela, massa com molho de tomate, manteiga e cebola (receita da Marcella Hazan) em que a única coisa que temos que fazer é cozinhar tomate (fresco ou em lata) com manteiga e uma cebola dividida ao meio durante três quartos de hora e servi-lo com a massa e parmesão. O que eu gostei particularmente nesta receita foi a simplicidade, o tomate é a verdadeira estrela deste prato com o sabor untuoso da manteiga e sem necessidade de alho ou ervas (como manjericão ou oregão) para alterar o sabor.

Gostei muito do resultado final, usei tomate de lata Guloso que era um pouco ácido e eu deveria ter colocado um pouco de açúcar para lhe retirar o travo ácido, para a próxima vou usar o que costumo ter em casa (Cirio) e logo vos dou um update.

Em seguida a receita da Marcella Hazan, do livro Food52 Genius Recipes:

Ingredientes
900g de tomate maduro de boa qualidade ou em lata inteiro pelado
70g (ou cinco colheres de sopa) de manteiga de boa qualidade (eu uso Milhafre ou Président La Motte com sal)
1 cebola média, descascada, e partida ao meio
Sal a gosto
1 embalagem de massa (gosto de Garofalo radiatori ou fusilli porque a textura permite que "agarrem" melhor o molho
Parmesão fresco ralado (se for do previamente ralado ninguém morre)

Preparação
Colocar tudo numa panela, inclusive a cebola em metade, e deixar ferver destapado em lume muito brando por quarenta e cinco minutos e ir mexendo e desfazendo o tomate pelado tendo em atenção para não deixar queimar o fundo, findo esse tempo retirar a cebola e deitá-la fora, a manteiga estará no topo por isso é só mexer tudo outra vez, ver se não está demasiado ácido, rectificar o sal se for caso disso e envolver a massa cozida e polvilhar com o parmesão. Faz um sucessão e é uma receita económica.

PS - Namorado, acho que nem tu consegues falhar esta.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Memórias ou reciclagem de posts

Hoje ao ler o post do Mark lembrei-me de um post escrito em Outubro de 2010 quando os sabores tinham outra morada que decidi reproduzir aqui porque se mantém, passaram quase quatro anos desde que o escrevi e foi à laia de desafio mas mantenho tudo.

"Hoje, em plena conversa tipicamente cerejeira, perguntava “Afinal de contas, vou escrever sobre o quê?”, não porque me falte assunto nos últimos dias mas não obstante, são coisas demasiadamente íntimas que me pertencem (ou não) e como tal não têm lugar nos Sabores do Vento. Ou ficariam demasiadamente rabiscoté e pareceriam uma caricatura ainda maior do que costumam ficar por estas bandas ou então seriam bastante reconhecíveis e interessam apenas às parte envolvidas. Juicy? Sim, sem dúvida. Chocantes? Algumas. Mas há que traçar uma linha entre o que podemos ou não partilhar.

E portanto fui desafiado para falar sobre amor, sobre se valerá a pena lutar pelo amor, ao que eu respondi que achei extremamente vago porque se fizermos esta pergunta a dez pessoas vamos receber dez respostas diferentes, todas válidas, todas fascinantes e todas incompletas por muito complexas que sejam as respostas.

Mas, ao contrário de uma tendência pseudo-espiritualóide que eu podia pintar de que o amor é incondicional e manifesta-se e é a partilha vou falar daquilo que nos assola e incendia e leva-nos a bater com a cabeça nas paredes. O amor romântico ou o amor paixão é lixado (ia usar um verbo com f, mas seria acusado de plágio) e tenho com ele uma relação esquisita. Como aqui não pretendo ser minimamente original já fiz os clichés quase todos, já o usei como estandarte pelo impossível, já fui extremamente cruel quando mo foi oferecido de mão beijada, já fiz figuras tristes e já fiz figuras alegres, já foi o meu sustento e o meu alento e já foi o Sol que nasce a cada manhã e já o amaldiçoei preso numa caixa (aparentemente) impossível de abrir, mas de alguma forma nunca desisti. Acho que o pior erro que qualquer um de nós pode fazer é prender o sentimento do amor a uma única pessoa e ficando nós assim eternamente presos a um estado de incerteza e de sobrevivência em que a nossa própria identidade fica translúcida e deixamos de ser e de existir, para sempre presos no Limbo e para sempre à deriva. Usamos frases absolutas como “se não for com a ou b ou c então não é com mais ninguém” ou tentamos transformar-nos em coisas que não somos para agradar até que o peso da máscara nos sufoca e nos mata a poucos e poucos. Amamos o Romeu e Julieta, mas convenhamos que por muito sublime que pudesse ter sido, aquilo não acaba bem. Histórias trágicas de amor têm piada porque são histórias e porque aquilo despoleta em nós o mais primordial que podemos sentir, mas não conseguiríamos viver naquela chama sem sermos inevitavelmente consumidos por ela. Amor é fogo que arde sem se ver, mas arde enquanto houver lenha e nós não passamos disso.

Depois outras alturas há em que o medo de ficarmos sós se mascara de amor, o medo do tempo que passa sem qualquer piedade, o vermos os amigos criarem as suas próprias histórias e ficarmos num estado tal de ansiedade que nem pomos a questão do mais vale só que mal acompanhado porque estar só não é nada animador e temos do outro lado a piedade solidária do “vais ver que vais encontrar alguém especial” ou então “para ti tem que ser alguém único que te mereça” e então aí quase que me apetece mandar isso às urtigas (ou à merda) e dizer “Ai é? Então venha, força, estou farto de estar à espera” e quando temos algo parecido ficamos por lá. Porque tudo muda, tudo se transforma e a esperança é a última a morrer, presa numa caixa de Pandora que entretanto encheu a nossa existência de angústia e de amargura e isso não é amor, rima claro, mas é apenas dor até termos a coragem de nos libertar.

Mas nunca desisti do amor, do seu ideal mágico e sádico e da promessa que fará parte do meu trilho e que quando se voltar a apresentar à minha frente eu arrisco e se bater com os cornos contra a parede, há sempre uma noite em frente ao ecrã a ver o “E Tudo o Vento Levou” e a pensar “Ah pronto, e eu a pensar que a minha vida é fodida, a Scarlet é que sofreu as passas do Algarve!”, por vezes dou por mim a soar frio, analítico e cínico quando o comento ou ouço desabafos, mas muito pelo contrário: nunca deixarei de acreditar no Amor, porque até prova em contrário ele nunca deixou de acreditar em mim."